A Selva de Pedra e a Ética do Cuidado

A Selva de Pedra e a Ética do Cuidado

Sabe aquele tempo da sua vida que você tira para colocar tudo em ordem? Passar um pente e resolver pendências que você está adiando há muito tempo? Pois é, fiz isso nos últimos dias e uma das necessidades que eu estava adiando há muito tempo, era de resolver alguns assuntos na Previdência Social.

Após vários dias garimpando informações, fazendo buscas pela internet, ligando na central para obter informações e meses de espera pela data mais próxima do agendamento, chegou o grande dia! Eu precisava estar 7:15 h no posto de atendimento no centro da cidade.

Devido à minha rotina de trabalho ser vespertina e noturna, há vários anos eu não saía tão cedo de casa. Me perdi um pouco com o horário e fui de táxi, sem ter conseguido tomar meu café da manhã. Ao chegar no posto de atendimento, dei de cara com uma grande fila, só para entrar. Aguardei e percebi um clima pesado no ar. Estavam todos da fila nervosos, insatisfeitos, reclamando o simples fato da fila existir. Reclamavam do governo Dilma, do governo Temer, da vida… Após vários minutos de espera, recebi a senha e rapidamente eu fui atendida.

No momento do atendimento, a segunda surpresa: a atendente não conseguia olhar para mim. Mantinha-se com o olhar fixo na tela do computador e com uma preocupação focada em me encher de papéis. Percebi que ela tinha uma postura de defensividade muito grande e olhando ao redor, percebi que todas as pessoas que chegavam para serem atendidas, também chegavam na defensiva – aliás, acho até que chegavam prontos para o ataque. O clima era tão pesado, que eu ficava tensa para perguntar alguma coisa ou tirar alguma dúvida; eu quase me sentia culpada em estar lá e faltava pedir desculpas à atendente por estar lá a incomodando. Senti compaixão daqueles servidores, que encaram esta guerra em seu cotidiano.

Saí de lá e pensei que teria então um tempo tranqüilo e sem corre-corre. Me surpreendi com o centro da cidade muito cheio, porque era o horário em que as pessoas estavam indo trabalhar – todos correndo. Lembrei de quando eu trabalhava como “office-girl” na adolescência, há 20 anos atrás, e pensei que o centro da cidade era mais vazio. Ainda nostálgica por esta época, fui até uma lanchonete comer um pão com ovo na chapa e tomar um café. Vi meu ovo com aquelas partes pretas de uma chapa que não estava bem limpa, tomei meu café quentinho e sem sabor – como aquelas coisas feitas em massa de modo industrializado – sentei-me nos banquinhos e pelo vidro, comecei a fazer o que mais gosto na vida: observar as pessoas.

Vi pessoas cansadas, correndo, tristes, raivosas. Vi vidas sem sentido. Vi pessoas indo trabalhar sem realização, porque não iam com um sorriso no rosto. Vi faces tensas e pesadas, me fazendo supor que estas pessoas estavam saindo de casa somente para ganharem seu dinheiro, comprarem, voltarem para casa e saírem para ganharem dinheiro de novo. Vi uma cidade cinza e sem vida. Vi uma selva de pedra.

Neste instante, me lembrei de Leonardo Boff. O renomado teólogo brasileiro postula a ética do cuidado, motivada pelo sentimento de cuidado para com tudo e com todos que se fazem presentes no Planeta. Em seu texto: “Saber Cuidar: Ética do Humano”, Boff ressalta 10 aspectos importantes: o planeta, a sociedade sustentável, o outro, os pobres e excluídos, nosso corpo, a cura interior do ser humano, a alma, o espírito, o sonho de Deus e a morte.

Você já olhou no dicionário o significado da palavra cuidar?

Trata-se de uma palavra com vários significados, mas aqui, vou focar dois: “preocupar-se com” ou “assumir a responsabilidade de”. Com o que você tem se preocupado? Você tem assumido ou deixado de assumir responsabilidades? Assumido o que é seu ou assumido o que é do outro? Tem ensinado seu filho a assumir responsabilidades? – porque isto é ensinado, ninguém nasce sabendo. A resposta que dermos para estas perguntas, serão indicadoras do nosso auto-cuidado, do cuidado que prestamos para nossa família, nosso trabalho, as pessoas, o próprio planeta no qual (ainda que nos esqueçamos) fazemos parte.

Em tempos de discursos de ódio diários, conceitos, preconceitos, julgamentos, percebi que estamos adoecendo porque não estamos sendo cuidados… porque não estamos cuidando…  porque está faltando amor. Amor este, que possibilitaria eu fazer amizades na fila da Previdência ou no mínimo começar o dia com boas gargalhadas! Amor que tornaria meu atendimento na Previdência mais produtivo e traria realização profissional para o servidor público. Amor que tornaria o ambiente mais leve e o cenário do centro da cidade mais verde. Amor que daria sabor ao meu café quentinho e ao meu pão com ovo. Amor e cuidado que fazem com os corações de pedra da selva metropolitana ganhassem vida!

Cuidemos então da parte que nos cabe. Assumamos a responsabilidade sobre a nossa vida. Preocupemo-nos uns com os outros. O amor começará a girar e a vida se tornará mais leve, fará mais sentido. É simples! Vamos tentar?