Cavalos de Corrida – O problema do ativismo em nossas crianças

Cavalos de Corrida – O problema do ativismo em nossas crianças

Neste mês, resolvi me dar um presente. Fui para um retiro, onde pude passar 10 dias sem nenhum meio de comunicação. Sem marido, sem filhos, sem trabalho, buscando uma conexão com Deus, com a natureza, e consequentemente comigo mesmo. Dias antes de ir, em conversa com um dos meus filhos, conversávamos  sobre o ativismo que estamos vivendo e que estamos submetendo as nossas crianças. Ele me disse que quando vê os pais educando seus filhos, vê como se fossem adultos criando cavalos de corrida. Como esta frase me impactou!

Você sabe o que é ativismo?

De acordo com o dicionário, ativismo consiste na transformação da realidade por meio da ação prática. A rigor, podemos pensar que o ativista é um inconformado, uma vez que, por meio das suas ações, ele está constantemente tentando modificar a realidade pelo qual está inserido. Em um primeiro momento, podemos verificar isso como uma virtude. Como uma qualidade e um recurso que qualifica o indivíduo a sempre crescer, e no entanto, colaborar com o crescimento de sua comunidade. Ocorre que, no ativismo, há algumas armadilhas escondidas que precisam de um olhar mais atento e mais maduro.

Quem de nós pode-se dizer realizado com a vida em que vive? Vivemos em uma cultura que tem interesse em gerar em nós um contínuo sentimento de irrealização. Para que o dinheiro continue circulando, precisamos estar constantemente insatisfeitos. O que temos nunca é o bastante: queremos um carro melhor, uma casa melhor, viajar mais, roupas mais bonitas, comer e beber com fartura, conhecer novos restaurantes, lugares para passear, festas, eventos…Nossa formação também está sempre deixando a desejar: temos que fazer uma graduação, uma pós, um mestrado, um doutorado, pós doutorado… Vivemos uma cultura que diariamente, o tempo todo, nos aponta que não podemos nos conformar com aquilo que falta em nossas vidas; e para isso, devemos continuar “correndo atrás”, para viabilizarmos aquilo que disseram que seria importante para nós termos.

Nossa cultura dita sempre o que devemos comer, onde comer, o que vestir, onde vestir, onde passear, como nos comportarmos, a formação e o corpo que precisamos ter… Nossa cultura sempre tem algo a dizer sobre QUEM nós devemos ser. Ao olharmos para este ser idealizado pela nossa cultura e olharmos para nós, que somos reais, experimentamos muita frustração! Experimentamos irrealização! E precisamos trabalhar mais, correr mais, para enfim podermos comprar nossa felicidade!

Acidental?

Esta situação não é acidental ou ocasional. Ela foi gerada para manter o nosso próprio sistema político-econômico. Foi gerada para distorcer em nós o nosso conceito de desejo e de necessidade. Nós não DESEJAMOS mais as coisas: nós PRECISAMOS delas. Qual mulher nunca foi ao shopping e disse para si que “precisava de comprar determinada coisa, senão sua vida estaria acabada?.”

Esta é uma grande armadilha montada pela nossa cultura que faz com que nos percamos no ativismo. Nos envolvemos em muitas ações e nunca estamos realizados! Sempre está faltando alguma coisa… Então, não paramos, e estamos sempre, e cada vez mais, nos envolvendo em mais e mais ações…

Este modo de vida que nos é sutilmente imposto, e que faz com que cedamos a ele sem termos consciência, vem trazendo várias consequências negativas: uma delas, que percebo frequentemente manifestando em nossas crianças, é a falta de empatia decorrente da desconexão humana que viemos experimentando.

Explico:

Qual mãe aqui nunca deixou seu filho no tablet, celular ou TV para fazer suas coisas. Mãe e filho perdendo a oportunidade de interagirem com pessoas e ambos interagindo com coisas. As coisas passam a ter mais importância que as pessoas. Pouco na fala mas muito no exemplo, as crianças da contemporaneidade vem aprendendo a existirem desta forma. Estamos formando pessoas menos solidárias e mais solitárias, como diz o escritor Hugo Monteiro. Esta solidão se manifesta, já na infância, em baixo empenho escolar, baixa tolerância à frustração, sentimento de desesperança, desamparo, podendo evoluir em patologias que se manifestam ainda na infância como a depressão infantil e complicações como suicídio e uso abusivo de drogas – sim, assuntos “pesados” como estes já são encontrados nas nossas crianças.

Voltemos então ao simples. Conectemos uns com os outros. A felicidade está disponível diariamente e gratuitamente. Aquilo que nos custa muito esforço, é ilusão. E aquilo que realmente custa caro, que não tem preço, não vale dinheiro e já está acessível a nós. Basta estender as mãos e dar um abraço!