De Mãe para Mãe – Confissões de um Luto do que não foi vivido

De Mãe para Mãe – Confissões de um Luto do que não foi vivido

Hoje pela manhã, vi uma postagem nas redes sociais de uma gravidez de múltiplos. Nesta postagem, uma mãe marcou uma futura mamãe, que fez o comentário: “Que horror, se sentir o movimento de um já é desesperador, imagine de vários”.

Neste momento, meus olhos se encheram de lágrimas. Não por condenar ou julgar o comentário desta mãe – não mesmo! A caminho dos meus miseráveis 40 anos, já alcancei uma maturidade suficiente para compreender que cada mulher faz a sua maternidade. Aprendi que não há maternidade melhor ou pior que a outra. Quando está posta a diferença, não há necessidade de se fazerem comparações.

Ocorre entretanto, que este comentário da futura mamãe enfiou o dedo em uma ferida aberta. Sim, quando nos incomodamos com algo que é do outro, o problema frequentemente está em nós! Sou mãe de um prematuro de 27 semanas.

Senti uma dor no estômago, que virou internação, que virou risco de vida, que virou parto de emergência em 24 horas. Sem chá de fraldas, sem romantismo! Não houveram selfies ou filmagens, nem visitas hospitalares. Sem decoração no quarto do hospital, sem decoração sequer do quarto do bebê. Uma transposição abrupta da plena fantasia e sonho para uma dura e desconhecida realidade que teve alta depois de 83 dias. Algo que me assombra até hoje.

O que isso pode acarretar?

Frequentemente nos deparamos com situações de luto pela perda do que foi vivenciado. A perda de um ente querido, de bens materiais, um emprego, dentre tantos outros possíveis. Tenho experimentado o luto pelo não vivenciado. Pelo que poderia ter sido e não foi. Pelo peso na barriga, pelo desconforto no calor, pelo movimento intenso do bebê intrautero – que algumas mulheres dizem que chega a doer. Pela amamentação, e por tantas outras experiências não vividas que nas primeiras semanas de nascimento do meu filho cheguei a me desorganizar, e não saber se eu era ou não uma mãe.

Me lembro da pressão feita pela equipe hospitalar nas primeiras semanas de nascimento do meu filho para que eu “ordenhasse”. Cheia de tensão e medicamentos no corpo que me deixaram 3 dias no CTI, eu ia para uma sala, tentar tirar leite com a mão, como se aquela fosse uma das pouquíssimas oportunidades que eu tinha de experienciar um resquício de maternidade que era assombrada de não durar muito tempo.

Após 20 minutos de tentativas a cada 3 horas, meu recorde foram 2,5 ml de leite, que eram levados para a equipe hospitalar carregados com um misto de sentimentos: alegria, esperança, tristeza, frustração, medo, culpa. Na sala de ordenha, vendo aquelas tetas fazendo produção em série com abundância, eu me sentia envergonhada. Penso que talvez seja esse sentimento que os homens têm acerca do comprimento e do desempenho de seus órgãos genitais. Nessa prisão, não sobra mais identidade, não sobra mais essência. Não sei o que sobrou ainda. Sei que, quase três anos depois, me peguei no banho apertando meu peito para ver se surgia uma gotinha de leite. Tamanho foi o condicionamento e trauma.

O luto:

O luto pelo vivido deixa saudades, enquanto o luto pelo não vivido, deixa vazio. Vazio que não tem como ser preenchido. No meu caso, porque não poderei engravidar de novo. E ainda que eu pudesse, eu não poderia engravidar novamente do mesmo filho. Deste filho que está aqui, diversas vivências não aconteceram e não acontecerão. Ponto final.

Entretanto, se pudesse voltar no tempo e escolher como as coisas seriam, eu escolheria que fosse do jeitinho que aconteceu, mesmo com todos os sentimentos de não-aceitação que persistem em manterem-se vivos. O vazio dói mas ele não é ruim. É um equívoco crermos que a dor é ruim. O vazio abriu para mim inúmeras possibilidades. E ter a oportunidade de aprender a conviver com ele, me torna mais livre. Assim, sou livre para viver a minha dor, sem precisar me aprisionar a algum recurso que preencha o vazio. Enlutada… mas feliz!