Um Minuto sobre a Dependência e as Dependências

Um Minuto sobre a Dependência e as Dependências

Estamos vivendo uma era onde a compulsividade se revela por toda parte.

Compulsividade é um termo que nos remete aos excessos. Excesso de peso, de compras, de jogo, de internet, de celular, de comida, de dinheiro, de drogas, de bebidas, de sexo. A contemporaneidade não só nos incentiva a buscarmos o excesso – sim, o suficiente não é suficiente – como nos incentiva ao alcance dos resultados com rapidez.

A equação excesso + prazer + resultados rápidos é umas das preferidas do nosso cérebro, particularmente para o sistema de recompensa. Quanto mais eficiente é esta equação, mais atenção o nosso cérebro dá para esta vivência, e assim começam as dependências. Nosso cérebro vai ficando cada vez mais dependente deste funcionamento – quero as coisas rápidas, com fartura e com prazer. Quem não quer isso atualmente?

Porém, esta cultura que vem se consolidando entre nós, vem fazendo com que paguemos preços, muitos dos quais não temos consciência ainda ou, se temos, achamos muito difícil viver de outra maneira. Poderíamos falar de tantas coisas mas hoje, falaremos do preço da dependência química.

Dados:

Dados recentes revelam que 5,7% dos brasileiros são dependentes de álcool e outras drogas, representando mais de 8 milhões de pessoas.

Dependência química não é falha de caráter, é uma doença crônica e progressiva. Trata-se de uma doença complexa, que adoece não somente ao usuário, mas predominantemente à família. A maioria dos familiares que é atingida negativamente por esta complexidade são as mulheres (80%), particularmente as mães (46%). Porém, não podemos pensar que estas mães são vítimas de seus filhos. Mais da metade destas famílias (61%) já possui outro membro  que é dependente químico. Estes dados trazem à reflexão a genética, mas a própria Psiquiatria já comprova com estudos que nossos genes não determinam nada, apenas vulnerabilizam o indivíduo. Mais forte do que a genética, são os fatores ambientais, nossa cultura, a educação que praticamos e a educação que estamos dando para os nossos filhos.

É simples:

Pare um minuto para olhar ao seu redor. Quando você vai para uma festa, você está em busca do que? De comer bem, de beber bastante ou da confraternização que o ambiente irá te proporcionar? Trocando em miúdos, você está indo atrás de comilança, embriaguez, música alta ou PESSOAS? Qual lugar as pessoas estão tendo em nossas vidas? Por que nas festas ao invés de interagirmos, entramos na internet do celular? E você consegue se ver se divertindo bastante sem precisar de algum entorpecente?

Se pararmos dois minutos, vamos olhar para dentro de nossa casa, na nossa família. Temos tempo de qualidade com os nossos filhos? Conhecemos os nossos filhos? Sabemos de seus medos, seus sonhos, o que eles estão sentindo neste exato momento? Priorizo arrumar a casa, trabalhar fora ou paro minha rotina para me interessar pela vida dos meus filhos ou do meu cônjuge? Qual importância é dada para a bebida alcoólica no meu contexto familiar? Eu dou autonomia para o meu filho ou faço tudo para ele? Você já parou para pensar que quando você faz PARA ele você está dizendo que ele é inseguro e dependente e que quando você faz COM ele você está incentivando-o a ser proativo e a trabalhar em equipe? Você ensina seu filho a fugir dos problemas ou o ajuda a desenvolver estratégias próprias para resolvê-los? Você dá o exemplo no enfrentamento dos seus problemas ou corre atrás do tarja preta?

E finalmente, se pararmos três minutos, olhamos para dentro de nós. O que eu realmente preciso para ser feliz? O que me falta? O que me realiza? Quais são meus sonhos? Eu tenho autonomia, corro atrás dos meus sonhos, faço boas equipes na minha família ou eu sou dependente: dependo do meu cônjuge para estar bem? Dependendo de alguém, de alguma forma, para viver alguma experiência que na realidade é minha? Dependendo dos meus filhos para ser feliz? Eles são minha motivação, minha razão de viver ou eu tenho a minha própria motivação, a minha própria razão de viver?

Sou psicóloga clínica há mais de 10 anos e frequentemente (para não dizer sempre…), a dependência química não é uma doença de quem usa a substância, mas da família inteira. Por isso as pessoas têm tanta dificuldade em assumir o problema em casa – lá no fundo elas sabem que todo mundo precisa de ajuda. Porém, frequentemente, queremos que as pessoas mudem, mas não achamos que precisamos de mudar, ou não queremos mudar – e aí, nada muda!

Esta lógica é a mesma para todas as compulsividades, para todo o excesso, para todas as dependências. Se continuarmos a viver sem pararmos para rever para onde estamos indo, o que estamos fazendo com nossas vidas e com nossas famílias, reproduziremos isso na educação do nossos filhos. Estaremos formando uma geração de pessoas dependentes. Assim, pare três minutos. São três minutos que poderão mudar sua história e a história de toda a sua família!